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Reforma Tributária: o produtor precisa fazer alguma coisa agora ou pode esperar?

Diante de tantas normas, notícias e informações sobre a Reforma Tributária, muitos produtores rurais estão perdidos em relação às novas regras e, principalmente, ao que efetivamente precisam fazer.

CNPJ, emissão de nota fiscal, apuração de IBS e CBS, créditos tributários, novos contratos. Afinal, o produtor precisa mudar alguma coisa agora ou pode esperar?

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A resposta está no meio do caminho: não é preciso sair fazendo todas as mudanças de uma vez, mas esperar a conta chegar para começar a agir também pode custar caro. A Reforma Tributária será implementada de forma gradual. Em 2026, estamos no ano de teste do IBS e da CBS e, a partir de 2027, uma nova etapa da transição começa, com mudanças mais significativas na sistemática de tributação.

Isso significa que essa reta final 2026 não deve ser de decisões precipitadas, mas também não deve ser um momento de espera. É o momento de entender, organizar e, principalmente, simular os próximos cenários.

O produtor rural vai precisar de CNPJ?

Esse foi um dos assuntos que mais geraram dúvidas no campo. A inscrição no CNPJ para as pessoas físicas abrangidas pelas novas regras, inclusive produtores rurais nas hipóteses previstas na regulamentação, foi postergada para 1º de janeiro de 2027.

E existe um ponto importante: ter um CNPJ para essa finalidade não significa que o produtor rural pessoa física será transformado em pessoa jurídica. A inscrição possui finalidade cadastral e fiscal para operação do novo sistema.

Portanto, não é porque haverá uma nova identificação cadastral que todos os produtores precisam correr para constituir empresas ou alterar imediatamente a estrutura de suas atividades. O que o adiamento trouxe foi algo muito valioso: tempo para adaptação. E esse tempo precisa ser utilizado para entender como cada propriedade será afetada.

E a nota fiscal, os novos tributos e a rotina da fazenda?

A Reforma não mudará apenas o nome dos impostos. A implementação do IBS e da CBS também exigirá adaptação na documentação fiscal e na forma como as operações serão registradas e acompanhadas.

Na prática, a organização tributária tende a se aproximar ainda mais da gestão financeira da propriedade. Notas fiscais de compra, insumos, despesas da atividade, vendas da produção, contratos e demais documentos terão importância não apenas para comprovar uma operação, mas também para compreender a formação dos créditos e débitos tributários dentro do novo sistema.

Por isso, propriedades que ainda possuem pouca organização documental e financeira precisam começar a olhar para essa estrutura. Não necessariamente para mudar tudo agora, mas para chegar a 2027 sabendo como suas operações funcionam.

A pergunta não é apenas “quanto será o novo imposto?”. Talvez esse seja o principal erro ao analisar a Reforma Tributária. Muitos produtores querem saber simplesmente qual será a alíquota. Mas a pergunta mais importante é outra:

quanto a Reforma poderá custar dentro da minha fazenda?

E essa resposta não será igual para todos. O faturamento, a atividade desenvolvida, a estrutura de custos, os insumos utilizados, a possibilidade de aproveitamento de créditos, a forma de comercialização e os contratos existentes podem produzir impactos diferentes em cada propriedade. Por isso, o produtor precisa começar a simular cenários.

A safra de 2027 começa a ser planejada agora

Imagine o produtor que está planejando sua próxima safra. Parte dos insumos já foram adquiridos em 2026, os custos serão assumidos ao longo dos próximos meses e a produção poderá ser comercializada somente em 2027. Então, a pergunta não deveria ser apenas quanto custa plantar hoje. É preciso começar a avaliar: Quanto poderá custar essa safra considerando o novo cenário tributário?

Quais insumos poderão gerar créditos? Qual poderá ser o impacto da tributação na comercialização? Como ficará a margem da atividade? Os contratos de venda já consideram essas mudanças?

O mesmo raciocínio vale para a pecuária. O animal que está no pasto hoje poderá ser o boi vendido em 2027. Seu custo está sendo formado agora. Compra de animais, alimentação, suplementação, medicamentos, combustível, arrendamento, mão de obra e diversas outras despesas compõem o resultado dessa operação.

Por isso, antes da venda, o produtor precisa conseguir simular quanto aquele animal efetivamente poderá custar e qual será o resultado da operação dentro das novas regras.

Esperar 2027 para descobrir isso depois da venda é chegar tarde à tomada de decisão.

Simular antes de decidir

É justamente aqui que entra o planejamento. Não basta aplicar uma alíquota sobre o faturamento e chamar isso de impacto da Reforma Tributária.

É necessário colocar os números reais da propriedade na mesa. Quanto a atividade fatura? Quanto custa produzir? Quais são os principais insumos? Quais operações poderão gerar créditos? Para quem a produção é vendida? Quais contratos continuarão produzindo efeitos nos próximos anos? Qual será o reflexo dessas mudanças no fluxo de caixa?

A partir dessas informações, é possível comparar cenários. Em uma propriedade, o principal impacto poderá estar no custo de produção. Em outra, no aproveitamento dos créditos. Em outra, na comercialização. Em determinadas situações, a própria estrutura dos contratos poderá precisar ser revista. É essa simulação que permitirá ao produtor decidir se precisa fazer alguma mudança e qual mudança realmente faz sentido.

Os contratos assinados hoje também chegarão a 2027

Arrendamentos, parcerias rurais, operações de barter, fornecimento de insumos, compra e venda da produção e outros contratos podem atravessar vários anos.

Um contrato celebrado hoje poderá continuar produzindo efeitos quando a Reforma Tributária já estiver em outra etapa da transição.

Por isso, os contratos também precisam entrar no diagnóstico. Isso não significa que todos devam ser refeitos imediatamente. Significa verificar quais contratos atravessarão a transição, como os tributos estão tratados, quem assumirá determinados impactos e se existe necessidade de cláusulas capazes de lidar com alterações tributárias relevantes. O contrato que parece adequado hoje pode produzir um resultado econômico diferente amanhã.

E quem está pensando em sucessão?

Existe ainda outro ponto que merece atenção: a sucessão patrimonial. A Reforma Tributária não se limita ao IBS e à CBS. As mudanças promovidas no sistema tributário também alcançam a tributação das transmissões patrimoniais, e a legislação passou a estabelecer a progressividade do ITCMD em razão do valor transmitido. Isso torna ainda mais importante o planejamento para famílias que já pretendem organizar a sucessão.

Se o produtor pensa em realizar doações, organizar os imóveis da família, estruturar uma holding ou começar a transferência patrimonial para a próxima geração, o momento de analisar os cenários é agora.

Isso não significa que todos devam correr para constituir uma holding ou realizar doações antes que alguma regra mude. Sucessão feita às pressas também pode gerar custos e problemas. A lógica deve ser a mesma aplicada à atividade produtiva: primeiro simular, depois decidir.

Quanto custaria realizar a sucessão hoje? Quais tributos estão envolvidos? Qual estrutura atende melhor à realidade da família? Qual será o custo de manter a estrutura escolhida? É melhor realizar a transferência agora ou posteriormente?

Planejamento sucessório não é escolher uma ferramenta pronta. É comparar caminhos e compreender as consequências de cada um deles.

Então, o que o produtor precisa fazer em 2026?

Antes de sair abrindo CNPJ, constituindo empresa, alterando contratos ou realizando mudanças patrimoniais, o produtor precisa fazer um diagnóstico da sua realidade.

Organizar os números da atividade, conhecer seu faturamento e seus custos, levantar contratos, analisar documentos fiscais, identificar operações que poderão atravessar a transição e simular os impactos tributários e financeiros dos próximos anos. Quem produz também precisa olhar para aquilo que já está sendo preparado para 2027.

Quanto vai custar a próxima safra? Quanto poderá sobrar da venda do boi? Como ficarão os créditos? Os contratos estão preparados? E, se a sucessão já está nos planos da família, qual será o melhor momento e a melhor estrutura para realizá-la?

Essas são perguntas que podem começar a ser respondidas agora.

Esperar também é uma decisão, e pode ter custo

O produtor não precisa transformar toda a estrutura da fazenda imediatamente por causa da Reforma Tributária. Mas também não deveria esperar receber a primeira guia de imposto para descobrir como as novas regras afetaram seu negócio. 2026 deve ser encarado como um ano de preparação, diagnóstico e simulação.

No campo, grande parte das decisões é tomada muito antes do resultado. A safra vendida em 2027 começa a ser planejada antes de 2027. O boi vendido no próximo ano começa a ter seu custo formado muito antes da venda. E uma sucessão bem estruturada começa antes de a família precisar dela. Com a tributação, a lógica não deveria ser diferente. O produtor não precisa tomar todas as decisões agora. Mas precisa conhecer os números, simular os cenários e entender os impactos antes que as novas regras comecem a produzir seus efeitos no caixa e no patrimônio.

Talvez, portanto, a pergunta não seja apenas “preciso fazer alguma coisa agora?”. A pergunta mais importante é: “O que eu preciso planejar hoje para não descobrir o impacto quando já for tarde para escolher?”