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C5: Trump cria um novo G7 sem a Europa — e o Brasil pode pagar a conta

Foto: Reprodução | www.whitehouse.gov/

Por Luiz Gustavo Alves
Campo Grande (MS), janeiro de 2026

Em dezembro de 2025, documentos vazados da National Security Strategy (NSS) de Donald Trump reacenderam um debate que muitos consideravam superado: o G7 estaria obsoleto. Segundo fontes internas citadas pela Politico e pela Defense One, os Estados Unidos avaliam substituir o grupo por um novo arranjo informal, o chamado C5 — ou Core Five: Estados Unidos, China, Rússia, Índia e Japão.

Não se trata de teoria conspiratória. É o reflexo de um mundo que mudou — e que Trump pretende reorganizar à sua maneira.

O que é o C5 e por que ele existe?

Diferente do G7, historicamente baseado em democracia liberal, renda per capita e alinhamento ocidental, o C5 se apoiaria em critérios de poder real:

  • População acima de 100 milhões de habitantes
    (China e Índia com cerca de 1,4 bilhão cada; EUA com 340 milhões; Rússia com 144 milhões; Japão com 123 milhões);

  • Capacidade militar significativa;

  • Influência econômica e geopolítica global.

Juntos, esses cinco países concentram cerca de 60% da população mundial, 70% do PIB global e a maior parte do poder militar convencional e nuclear do planeta. É um clube de hard power, não de valores compartilhados.

Trump já flertava com essa ideia em seu primeiro mandato (2018–2019), quando defendeu a reinclusão da Rússia e até da China no G7, chamando a exclusão de Moscou de “um grande erro”. Em 2025, com o retorno ao poder, o conceito reaparece em rascunhos classificados da NSS. Oficialmente, a Casa Branca nega qualquer plano formal — mas evita negar que a discussão exista.

Por que o G7 perdeu relevância?

Hoje, o G7 representa cerca de 30% do PIB global, bem abaixo dos quase 50% que concentrava nos anos 1990. Enquanto isso, o BRICS — impulsionado por China, Índia e Rússia — ganha musculatura política e econômica.

A Europa, que domina o G7, enfrenta estagnação econômica, crise energética e perda de protagonismo militar. Para Trump, o grupo virou um “clube de amigos europeus” que dificulta acordos diretos com as potências que realmente importam.

O C5 seria a versão pragmática e transacional dessa visão: negociações diretas entre líderes fortes, sem ideologia liberal ou burocracia multilateral. Esferas de influência bem definidas — Rússia no Leste Europeu, China na Ásia, Índia no Sul Global — e acordos rápidos, como a normalização entre Israel e Arábia Saudita, apontada como prioridade nos vazamentos.

E o Brasil nisso tudo?

Com mais de 216 milhões de habitantes (IBGE, 2025), o Brasil atende ao critério demográfico, mas fica fora do C5. Falta peso militar global e influência econômica compatível com os cinco gigantes. O risco é claro: virar fornecedor periférico de recursos em uma ordem mundial dominada por poucos.

  • A China já absorve cerca de 30% da soja e do minério brasileiros;

  • A Rússia exerce influência por meio de fertilizantes e fornecimento militar;

  • A Índia disputa mercados estratégicos do agronegócio;

  • Os EUA de Trump priorizam acordos bilaterais duros, sem mediação.

Se o C5 se consolidar, o Brasil pode ser espremido entre potências, sem voz nas grandes decisões globais, dependente de exportações primárias e vulnerável a sanções, boicotes e pressões comerciais. É o oposto do discurso de soberania que o país costuma defender.

Uma nova ordem mundial elitista

O C5 não representa uma multipolaridade democrática. Trata-se de uma lógica que se aproxima do tecnofeudalismo geopolítico, conceito descrito por Yanis Varoufakis em Tecnofeudalismo (2023): grandes potências cobrando “aluguel” político e econômico de nações menores.

Curtis Yarvin (Mencius Moldbug), influenciador da nova direita tecnológica e mentor intelectual indireto de figuras como JD Vance, defende exatamente isso: Estados administrados como empresas, liderados por “CEOs soberanos”.

Trump, com apoio de nomes como Peter Thiel e Elon Musk, parece alinhado a essa visão — acordos entre strongmen, sem interferência de “burocracias europeias” ou “valores liberais”. Nesse cenário, um país como o Brasil, sem liderança forte e estratégia clara, corre o risco de virar apenas um celeiro global.

Conclusão: o Brasil precisa acordar

O G7 perdeu relevância. O C5 pode nascer em 2026 — e o Brasil não está convidado.

Se quisermos soberania real, e não vassalagem moderna, será necessário:

  • Diversificar parceiros comerciais, reduzindo a dependência da China;

  • Investir em tecnologia, indústria e inovação, não apenas em commodities;

  • Fortalecer as Forças Armadas e uma diplomacia verdadeiramente independente.

O futuro ainda não está escrito. Mas, se o C5 se tornar realidade, quem não se preparar não será protagonista — será apenas espectador. Ou pior: vítima.

Luiz Gustavo Alves