O governo de Luiz Inácio Lula da Silva está no centro de uma investigação envolvendo a distribuição de quentinhas para pessoas em situação de vulnerabilidade social. O Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) firmou contratos milionários com organizações não governamentais (ONGs), que, supostamente, não têm cumprido as obrigações acordadas. O valor total de um desses acordos chega a R$ 5,6 milhões, destinado a entidades lideradas por pessoas com ligações ao Partido dos Trabalhadores (PT). Contudo, investigações do O Globo revelaram que muitas dessas ONGs não têm entregue as refeições previstas nos contratos.
O contrato celebrado em novembro de 2024, dentro do programa Cozinha Solidária, tinha como objetivo a distribuição de 4.583 refeições mensais, direcionadas a pessoas em situação de rua e outras vulneráveis. Porém, ao visitar os endereços informados ao MDS, a reportagem não encontrou sinais de produção ou distribuição de alimentos, gerando um alerta sobre a falta de fiscalização e execução das verbas públicas.
Uma das ONGs envolvidas, a Cozinha Solidária Madre Teresa de Calcutá, foi encontrada com as portas fechadas. Embora tenha informado que entregou 250 quentinhas em janeiro, esse número representa apenas 5% do valor mensal estipulado no contrato. Além disso, um recibo indica que, apesar da entrega não ter ocorrido em dezembro de 2024, a ONG recebeu R$ 11 mil pelos serviços não prestados.
Outras ONGs com contratos no valor de R$ 5,6 milhões também estão sendo investigadas, incluindo a Cozinha Solidária Unidos Pela Fé. Embora o contrato tenha sido assinado em dezembro de 2024, nenhum alimento havia sido distribuído até fevereiro de 2025. A situação é ainda mais complicada quando se constatou que relatórios enviados ao governo indicam a entrega de 4.583 quentinhas em um mês em que não houve distribuição alguma.
O dono da ONG que firmou os contratos, José Renato Varjão, ex-assessor do PT, alegou que visitaria os locais para verificar o andamento do projeto. Segundo ele, a participação de petistas nas ONGs seria uma mera coincidência. No entanto, uma série de entidades vinculadas ao clã político dos Tatto também estão no radar, com contratos semelhantes para a distribuição de refeições.
Em resposta, o MDS afirmou que está realizando visitas para monitorar as ações das ONGs contratadas e que tomará as medidas cabíveis caso se comprove o não cumprimento das metas de entrega. O governo prometeu que pode cortar os repasses, solicitar a devolução dos valores ou até inabilitar as organizações que não cumprirem suas obrigações.
Além dos problemas de entrega, a investigação apontou uma série de irregularidades na prestação de contas, com documentos idênticos e metadados indicando que relatórios de diferentes ONGs foram gerados pelo mesmo usuário, um advogado ligado à Mover Helipa, a ONG que lidera o esquema.
O caso evidencia graves falhas no controle e fiscalização dos recursos públicos destinados ao combate à fome, alimentando a crítica de que o programa pode estar sendo usado para favorecer aliados políticos, sem que os objetivos sociais sejam cumpridos.



