O desfile que transformou Luiz Inácio Lula da Silva em protagonista na Marquês da Sapucaí não ocorreu em um vácuo político. O Brasil vive um ano eleitoral, sob forte polarização, com decisões judiciais recentes que já demonstraram disposição do Tribunal Superior Eleitoral em intervir preventivamente quando entende haver risco de propaganda antecipada ou desequilíbrio na disputa.
Em pleitos anteriores, conteúdos audiovisuais, inserções e até produções documentais foram suspensos sob o argumento de potencial influência eleitoral indevida. A justificativa sempre foi a mesma: proteger a lisura do processo e evitar abuso de poder político ou econômico. A régua parecia clara.
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Agora, diante de um desfile amplamente televisionado, custeado com recursos públicos e centrado na exaltação direta do presidente — que é pré-candidato à reeleição —, a Corte opta por não intervir, alegando risco de censura prévia. A mudança de postura levanta um questionamento inevitável: a interpretação da lei varia conforme o protagonista?
Não se trata de defender censura artística. O Carnaval é, historicamente, espaço de crítica, sátira e posicionamento político. O problema surge quando a manifestação cultural coincide com promoção explícita de uma liderança que disputará as urnas meses depois, com ampla exposição midiática e simbólica, sem qualquer contraponto.
Ao permitir a homenagem sem qualquer freio, o TSE envia um sinal ambíguo ao eleitorado. Em outros momentos, a Corte agiu com rigor contra conteúdos considerados favoráveis a adversários de Lula, inclusive com decisões liminares que interromperam veiculações antes mesmo do julgamento definitivo. Agora, a prudência dá lugar à tolerância.
Para além da Corte, há a responsabilidade política do próprio presidente. Em meio a questionamentos envolvendo órgãos federais, críticas sobre gestão e desgaste institucional, a participação ativa no desfile — inclusive descendo à avenida — reforça a percepção de que o evento não foi apenas celebração cultural, mas também gesto estratégico.
A política brasileira vive de símbolos. E o símbolo projetado foi o de um presidente celebrado em horário nobre, sob aplausos e recursos indiretos do Estado, enquanto adversários enfrentam decisões rigorosas quando ocupam espaço semelhante.
A democracia exige liberdade artística, mas também exige isonomia. Quando a aplicação da lei parece oscilante, a confiança nas instituições sofre. E, num país já dividido, decisões assim não apaziguam — aprofundam a sensação de que há pesos diferentes para atores diferentes.
O enredo passou, o homenageado sambou e, no ritmo da bateria, ganhou o fôlego político que precisava em ano eleitoral. Ao optar por não intervir, o Tribunal Superior Eleitoral acabou entregando, na prática, um tanque de oxigênio a Luiz Inácio Lula da Silva — sob aplausos, holofotes e sem qualquer freio institucional.



