Uma pesquisa brasileira de ponta trás esperanças para pacientes com lesões graves na medula espinhal. Liderada pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a investigação desenvolveu um composto biomolecular capaz de estimular a regeneração neural em casos de paralisia completa — um avanço que pode transformar o tratamento de tetraplegia e paraplegia.
A descoberta ganhou o apelido popular de “proteína de Deus”, tanto pelo impacto dos resultados quanto por uma curiosidade estrutural: a molécula que deu origem ao composto possui formato tridimensional semelhante a uma cruz.
Após mais de 25 anos de estudo, a equipe criou a polilaminina, uma forma polimerizada da proteína laminina, naturalmente presente no organismo e obtida a partir de proteínas da placenta humana. Durante o desenvolvimento embrionário, a laminina atua como uma espécie de “rede” que orienta os neurônios a se conectarem e a formar circuitos nervosos essenciais para o movimento. A partir dessa base, a polilaminina foi produzida em laboratório para ser aplicada diretamente na medula lesionada.
Os resultados experimentais têm sido considerados extraordinários: em um grupo de oito pacientes com lesões completas na medula espinhal, seis evoluíram de um quadro sem qualquer controle motor para recuperação parcial ou significativa dos movimentos após receber a aplicação do composto em fase experimental.
Como funciona a polilaminina
A polilaminina age no microambiente do tecido lesionado, reorganizando a matriz extracelular e criando um suporte físico e bioquímico para que axônios — prolongamentos dos neurônios responsáveis pela transmissão dos sinais elétricos — possam crescer novamente e restabelecer a comunicação entre o cérebro e o corpo.
Essa reorganização dos circuitos nervosos é considerada um dos maiores desafios da medicina regenerativa, porque rompimentos na medula costumam causar paralisias permanentes. As primeiras respostas motoras observadas nos pacientes incluem tentativas de movimento em membros antes completamente paralisados, com relatos de controle progressivo das funções motoras após sessões combinadas de injeção experimental e fisioterapia.
Resultados em humanos e repercussão
Os achados têm repercutido em veículos científicos e na imprensa nacional. Pacientes que participaram da fase experimental relataram progressos motores, como retomada de movimentos nos dedos e melhora nas funções corporais básicas.
Outros estudos indicam que a eficácia tende a ser maior quando o tratamento é aplicado nas primeiras 72 horas após a lesão, especialmente quando associado a procedimentos cirúrgicos e reabilitação intensiva.
Avanço regulatório e próximos passos
Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o início da Fase I de ensaios clínicos humanos com a polilaminina — etapa que tem como foco principal avaliar a segurança do tratamento em voluntários com lesões medulares traumáticas recentes.
O medicamento experimental foi desenvolvido em parceria com a farmacêutica brasileira Cristália, responsável pela produção do composto em escala e pela condução dos estudos regulatórios.
Importância científica e social
Especialistas veem a polilaminina como um potencial marco da medicina regenerativa, porque ela não atua apenas na proteção de tecidos lesionados, mas na reconexão funcional de neurônios — um feito que, até pouco tempo, era considerado inacessível pela biologia aplicada.
Embora o tratamento ainda esteja em fase experimental e dependa de aprovação regulatória para uso clínico amplo, os resultados preliminares colocam o Brasil no centro das discussões internacionais sobre novas terapias para lesões medulares — com impacto direto na qualidade de vida de milhões de pessoas que vivem com paralisias decorrentes de acidentes ou traumas.






























