Um áudio de quatro minutos enviado pela jornalista Vanessa Ricarte, de 42 anos, a um amigo após ser atendida pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), revela que a própria polícia teria induzido a vítima a voltar para casa, onde foi brutalmente assassinada pelo ex-noivo, Caio Nascimento, com três facadas no peito nesta quarta-feira (12).
No áudio, Vanessa descreve que foi atendida de forma fria pela delegada, que o agressor estava sendo protegido e que não recebeu apoio adequado. Ela buscava segurança, mas foi orientada a retornar à residência, mesmo alertando sobre o perigo que corria. Horas depois, no fim da tarde, Vanessa foi atacada e, apesar de resgatada, não resistiu às lesões, falecendo às 23h55 no Hospital da Santa Casa de Campo Grande.
O Campo Grande News teve acesso ao áudio onde Vanessa narra a omissão da delegacia e demonstra sua insegurança em retornar à casa com Caio ainda presente. Em sua mensagem, ela relata a conversa com a delegada e expressa frustração com a falta de suporte. “Fui falar com a delegada e explicar toda a situação. Ela me tratou de forma fria, seca, toda hora me cortava. Eu queria ver o histórico da pessoa e me disseram que não podiam passar”, disse Vanessa no áudio.
Contradição das autoridades
O áudio desmente as declarações da delegada titular da Deam, Elaine Benicasa, e da adjunta, Analu Ferraz, que afirmaram em entrevista coletiva que a vítima recebeu todo o suporte necessário. Segundo elas, Vanessa teria optado por retornar à casa por conta própria. No entanto, no áudio, a jornalista destaca que foi instruída a avisar Caio de sua volta, apesar dos riscos conhecidos.
“Ele já tinha falado que só sairia de casa com a polícia. Mas de qualquer forma, eu vou ter que ir lá”, lamenta Vanessa. Ela também criticou a burocracia que impediu a assinatura imediata da medida protetiva, deixando-a ainda mais vulnerável.
Repercussão e investigação
O delegado-geral da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, Lupérsio Degerone Lucio, manifestou solidariedade à família e afirmou que, por determinação do governador Eduardo Riedel (PSDB) e da Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), foi instaurado um procedimento para apurar a conduta da Deam no caso. “Tivemos uma reunião para aprimorar o atendimento às vítimas na delegacia”, declarou o delegado-geral.
A ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, repudiou o caso e cobrou mudanças urgentes no sistema de proteção às vítimas de violência doméstica. “Não podemos continuar perdendo mulheres por falhas institucionais. As autoridades precisam garantir segurança real para quem busca ajuda”, declarou.
O caso de Vanessa reacende o debate sobre a eficácia das medidas protetivas e o atendimento às vítimas de violência doméstica, que frequentemente enfrentam dificuldades burocráticas e desamparo das autoridades.
Confira a íntegra do áudio de Vanessa Ricarte enviado a um amigo:
Não aconteceu nada, porque assim, eu fui falar com a delegada, fui tentar explicar toda a situação e do jeito que ela me tratou também, bem prolixo, sabe? Bem fria, seca e ela toda hora me cortava assim, eu queria entender, quem que é essa pessoa? Vê o histórico da pessoa e falou para mim que não podia passar o histórico dele, mas que eu já sabia, porque ele mesmo tinha falado de agressões.
Aí eu falei: “Não, que eu queria entender a natureza dessas agressões”. Porque ele falou para mim que foi porque a mulher ameaçou a filha dele, enfim. Aí ela falou: “Não, você aí, você não vai falar, eu não vou, não posso te passar isso aí, é sigiloso, sigilo”. Sim, parece que tudo protege o cara, né, o agressor. E aí ainda não foi nem mandado, tem que ter um mandado, né, judicial.
Então, hoje, por exemplo, não tem como ele assinar essa medida protetiva e passou aqui o telefone da oficial de justiça, né? Passou a senha do processo para eu ficar consultando. E do boletim de ocorrência, ela falou que não adianta acrescentar, porque não vai mudar muita coisa, porque já foi para o judiciário.
E ele tá aí me perguntando, se eu falo com você, seu pai conversa comigo, você não conversa nada. Eu falei, mas eu preciso voltar para a minha casa, preciso tomar banho, faz dois dias que eu não tomo banho, troco de roupa. Aí ela ‘então vai para a sua casa, você já avisou ele, manda uma mensagem falando para deixar a casa’. Então assim, eles não entendem né, a dimensão do negócio. Porque ele já tinha falado para mim que só saía de casa com a polícia. Mas de qualquer forma, eu vou ter que ir lá na casa e vou falar com ele isso aí.
Se ele falar que ele não vai sair, aí eu vou ter que acionar a polícia. Aí meus pais estão vindo, já vão brigar comigo, tudo porque [vão] falar que eu fui precipitada, que esse cara depois vai me matar e tal, não tem o que fazer, porque ele só vai preso se tiver flagrante. Por isso que ele não foi preso no caso da Leca, né? Ele fugiu do local do crime. Ele não tinha flagrante, não sei como que esse cara não foi preso depois.
E, eu tô aqui, pensando, raciocinando o que a gente pode fazer. E se for preciso, sei lá, aciona a doutora Cantes para ela acionar o MP, que é através do marido dela. Sei lá. É uma coisa desse sentido, é uma via que eu tenho, né?
E é isso, assim, eu tô bem, bem impactada com o atendimento da Casa da Mulher Brasileira, sabe? Eu que tenho toda a instrução, escolaridade, fui tratada dessa maneira, imagina uma pessoa, uma mulher vulnerável lá, pobrezinha, vamos dizer assim, chegar lá toda vulnerável sem ter uma rede de apoio nenhuma. Chegar lá, essas que são mortas, né?
Essas que vão para estatística do feminicídio. E é isso. Eu tô esgotada mentalmente falando. Perdida, sabe? Tô decepcionada. Aí eu tô me sentindo culpada, porque eu fui registrar o BO hoje de madrugada. Sabe, não briga comigo.
É uma coisa assim que eu fiquei chateada com meu pai falando: “Não, esse cara pode pegar depois, você não sabe o que vai dar e tal, não sei o quê”. Então, eu fazendo ou não fazendo pelo que você disse, né? Eu não fazendo ou fazendo o boletim de ocorrência, ele pode me agredir de qualquer maneira, né?



