A proposta do governo federal de aumentar a faixa de isenção do Imposto de Renda (IR) para trabalhadores que ganham até R$ 5 mil foi classificada como uma “medida eleitoreira” pelo economista Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). Segundo ele, a iniciativa busca agradar o eleitorado de classe média, especialmente aqueles com renda entre R$ 3 mil e R$ 5 mil, visando fortalecer a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2026.
As declarações foram feitas em entrevista ao portal BBC News Brasil, na qual o economista destacou os riscos econômicos da medida no atual contexto fiscal do país.
Crítica ao contexto fiscal
Pessôa argumenta que, diante do desequilíbrio das contas públicas, a ampliação da isenção tende a piorar o quadro fiscal, gerando inflação e aumento da dívida pública. A medida, que deve ser discutida no Congresso Nacional em 2025 para ser implementada em 2026, foi recebida com desconfiança pelo mercado financeiro, o que resultou na alta do dólar, que ultrapassou a marca de R$ 6.
“A pior coisa, para os pobres, é bagunça macroeconômica”. “Uma crise fiscal contrata inflação, desorganização de emprego, outras coisas que são muito ruins”, afirmou Pessôa, relembrando os impactos negativos vividos pelo país entre 2014 e 2016.
O economista também destacou que o aumento da cotação do dólar pode encarecer produtos importados e bens cotados internacionalmente, como alimentos e combustíveis, impactando diretamente a população de baixa renda.
Medidas compensatórias
Além da ampliação da isenção, o pacote fiscal proposto pelo governo inclui cortes de gastos públicos e a criação de um imposto mínimo de 10% sobre rendas mensais superiores a R$ 50 mil, com previsão de economizar R$ 70 bilhões em dois anos, segundo o Ministério da Fazenda.
Embora veja os cortes como positivos, Pessôa avalia que eles são insuficientes para conter o crescimento acelerado das despesas obrigatórias, como aposentadorias, que superam a expansão econômica do país.
Reação política e econômica
A alta do dólar foi alvo de críticas da presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann, que classificou o movimento do mercado como “especulação contra o Brasil”. Para Pessôa, no entanto, a saída de investidores reflete a percepção de risco gerada pela falta de equilíbrio fiscal:
“Se o mundo todo não está vindo investir aqui, é porque o mundo está vendo um risco que tem que ser encaminhado. Porque desequilíbrio fiscal não é uma coisa pequena”, disse ele ao BBC News Brasil.
Pessôa também pontuou a dificuldade de setores da esquerda em lidar com a gravidade da situação fiscal, criticando o que chamou de tendência conspiratória:
“É difícil a esquerda entender o problema porque a esquerda adora uma teoria conspiratória. […] Porque desequilíbrio fiscal não é uma coisa pequena.”
Eleições de 2026 no radar
Para Pessôa, a decisão de ampliar a faixa de isenção está claramente ligada às eleições presidenciais de 2026, com o governo mirando o eleitorado de classe média para consolidar o apoio político ao presidente Lula.
A entrevista ao portal BBC News Brasil reflete as preocupações de economistas com os impactos de curto e longo prazo da medida, especialmente diante de um cenário econômico desafiador. Segundo ele, o Brasil precisa equilibrar suas contas antes de implementar mudanças com apelo popular que podem agravar os riscos econômicos.



